terça-feira, 26 de maio de 2009

A pré- história de Brejo da Madre de Deus - PE

A Furna do Estrago, abrigo sob rocha localizado no município do Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, escavado pela equipe de arqueologia da Universidade Católica de Pernambuco-UNICAP, é um dos mais importantes sítios arqueológicos brasileiros.

Formado pelo desabamento de um grande bloco de rocha granítica, no sopé da Serra da Boa Vista durante a glaciação de Riss, o abrigo foi preenchido por blocos de rocha e sedimentos soltos pelo intemperismo físico, transportados em violentas precipitações torrenciais, provavelmente durante a glaciação de Würm.

Constituído por um único salão de 125m² de área coberta, com abertura voltada para nordeste, o abrigo é bastante arejado, seco e iluminado. Diante dele estende-se um patamar delimitado por grandes blocos de rocha granítica, alguns contendo arte rupestre, de onde se pode observar o vale a 27m abaixo e o relevo aplanado na direção da calha do Rio Capibaribe, dentro de uma vegetação de Caatinga, característica do semi-árido nordestino.

Da sucessiva utilização do sítio como habitação por grupos caçadores coletores numa seqüência temporal de aproximadamente dez mil anos, resultou uma estratigrafia em que predominam as lentes de fogueiras superpostas, formando pacotes de cinzas, e sedimentos finos, soltos, secos, de cor parda, fáceis de escavar, contendo restos alimentares e toscos artefatos de pedra e osso.

Há cerca de dois mil anos, este sítio passou a ser utilizado como cemitério. A estratigrafia construída pelo homem, desde o início do Holoceno, foi intensamente perturbada com a abertura de dezenas de fossas funerárias. Apenas uma área próxima do fundo do abrigo permaneceu intacta e foi tomada para estudos estratigráficos e de distribuição dos restos alimentares possibilitando interpretações paleoclimáticas.

Constatou-se que os recursos alimentares animais e vegetais disponíveis na região, e utilizados pelo homem pré-histórico, permaneceram os mesmos ao longo dos últimos onze milênios, indicando que não houve alterações ambientais significativas durante o Holoceno.

Da ocupação do sítio como cemitério resgataram-se 83 esqueletos humanos encontrados em bom estado de conservação. As condições ambientais favoreceram a rápida desidratação da matéria orgânica e a preservação da pele, dos cabelos e do cérebro em alguns indivíduos, bem como, do artesanato em palha utilizado no ritual funerário. Observou-se a persistência de um padrão de sepultamento em que os corpos eram colocados na posição fletida (fetal) amarrados com cipós e embrulhados em esteiras de folhas de palmeira, compondo verdadeiros fardos funerários. Em muitos casos as fossas funerárias estavam também forradas com folhas de palmeira. Os recém-nascidos eram depositados em pequenos cestos ou em espatas de palmeiras. Os adultos estavam acompanhados de colares e alguns levavam flautas ósseas e tacapes.

Os recém-nascidos não levavam adornos, com exceção de um que estava acompanhado de duas pequenas contas discoidais de amazonita. Em todos, adultos ou crianças havia matéria corante - ocre (óxido de ferro), triturado.

Estudos de antropologia biológica realizados sobre esses esqueletos revelaram tratar-se de uma população homogeneamente braquicéfala, de estatura média-baixa, robusta, com estado de nutrição satisfatório e boa adaptação às condições ambientais. O acentuado desgaste plano dos dentes e a ocorrência de poucas cáries nesses indivíduos indicam uma alimentação à base de vegetais não cozidos, característica observada em grupos caçadores coletores.

5 comentários:

Malu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Malu disse...

Adorei! Muito interessante.

SITE DE FOFOCAS FUXICO disse...

Maravilhoso !! Me ajudou muito em uma pesquisa, texto detalhado e bem claro.

Brendo disse...

muito interessante! obrigado

Zayra Medeiros disse...

Obg muito interessante essa história